Umbus

Umbus

(Efigênio Moura – Melbourne, FL- 30/03/18)

Sentei num desses bancos que botam na frente das bodegas de hoje, sentindo o peso do umbu inchado. Um não, dois. Dois umbus inchados no lugar dos olhos. E o peso dos bichos aumentava quando me lembrava mais ainda do tempo de chuva no meu sertão. Aqui não tem disso não. Tempo de chuva? Aqui chove direto, chega dá gastura.

O bom é esperar o tempo da fartura, do colher o maxixe, espiar o milho bonecando, ouvir o pipoco da vagem no meio da plantação, se enganchar nas ramas de melancia e ter a fé que naquele barreiro, que de casa dá para avistar sem carecer de muita agonia, inda vive ao menos meia dúzia de piabinhas. O bom mesmo é se preparar pra semana santa.

Aqui o povo nem faz o sinal da cruz! Uma ligeireza e uma lonjura, mas é frio. Igualzinho à Semana Santa do meu Cariri.

Se tem uma coisa que posso fazer aqui é relembrar…

Peguei o celular, os fones de ouvidos, acochei nas orelhas e encarquei no pitoco virtual do meio do vidro que faz tocar as cantigas…
Os umbus se madurando nos meus olhos e Flavio Leandro com a mulesta:

Quando o ronco feroz do carro pipa
cobre a força do aboio do vaqueiro

Quando o gado berrando no terreiro, se despede da vida do peão

Quando verde eu procuro pelo chão, não encontro mais nem mandacaru

Dá tristeza ter que viver no sul, pra morrer de saudades do sertão.

E eu em cima de um galho de aroeira, me despencando pra dentro do rio Paraíba. Depois de um ou dois cangapés, me livrando das barreiras e rezando pra ninguém mangar d’eu, depois na sombra dessa mesma aroeira tomar uma bicada de Casa Grande com rolinha assada num fogo arrodeado de pedra…

Uma risadagem, umas mentiras, umas pabulagens, um espiar numa galega solteira e faceira.

E Flávio José bem dizia agora estourava os umbus dos meus olhos…
“Vá separando os espinhos
Não esqueça que os caminhos
São difíceis pra danar
Nem todo atalho
Diminui uma distância.

Esticando as pernas com cuidado pro currelepe não peitar em ninguém, continuei tomando banho de biqueira, levando escorrego no batente do meio fio, sentindo o cheiro de galinha torrada (pense num cheiro bom da gota!), cachorro correndo todo molhado até levar um baque com os “quatro pés” em frente da bicicleta de um bêbado.

Nem dei fé que um bicho pulou dos meu ouvido, só vi quando uma mão me tocou e disse..

“Pras bandas de lá tá tudo verdin…os barreiros chein, os caçote fazeno cantoria, menino fazeno muganga, as cacimba tudin coberta d’agua, os açude sangrano, o ri Taperoá de barreira a barreira, chove que nem Padim Ciço disse quia chuvê…”

Espiei alegrado para o homem que também tinha os umbus nos olhos, ri para ele e voltei pra dentro do meu Cariri. Nessa hora só tinha a casquinha dos umbus, escorrendo as águas que já tinham chegado no meu Cariri.
Foi quando Rangel Junior enfeitou a saudade:

“Nascido cangaceiro,

Sou filho de guerreiro nordestino

Sou madeira de lei, sei meu destino

Cupim pra me roer tem que penar”

Quanto mais se afasta, mais se entra nesse Cariri.
Mais dentro fica.

Deixe uma resposta

Fechar Menu
×
×

Carrinho