CIÇO RANGELISTA

Rangel Junior

Musicar um livro.

Todas as minhas estórias são com o radio ligado. São contadas ouvidas e sentidas, tomando por fôlego as frases que os poetas compositores botam nas bocas dos cantores.

É como escolher uma trilha sonora, casar cada momento com a palavra certa, para que o efeito seja no mínimo eterno.

Eita Gota já trazia Flavio José, Sivuca, Jessier Quirino, Eudimar Raposo. Enquanto a veraneio azul serpenteava feito cobra jararaca pela Boca da Mata e Cariri, os cabas se esgoelavam cantando e contando suas coisas.

Em Ciço de Luzia, nas duas línguas, o  destaque de hoje  vai para a releitura da Difusora de Marcelino ( Monteiro-PB) quando de sua boca arredondada saia  Santana cantador e dançador numa letra única e própria para o momento que Ciço e Luzia na festa da padroeira de Monteiro:

“ Eu não pensei que fosse proibido
Amar de longe e de perto com o mesmo coração”

Era a letra de Rangel.

Os versos perdidos de Florbela, acalantaram o maior romance escrito vivido no Cariri da Paraíba – e ai eu penduro a modéstia no torno da casa de Tia Judith.

Florbela é somente uma das inúmeras cantigas desse cumpade criado com pipoca de telha, mordedor de juá, apreciador das coisas da vida da gente, uma vida Seridó, uma vida Cariri.

Quem passava em Juazeirinho e via a sopa parar na rodoviária, comprava umbu, rolete de cana, pipoca branquinha ensacada, comprava confeite, chiclete, pirulito de açúcar e laranja bem descascadinha, mas não se adentrava na cidade mode que o motorista não tinha tempo e nem o cobrador deixava descer.

A essência de Antônio- filho de Tonito vem das raízes dos pés de Juazeiro, das concas dos umbuzeiro, dos riachos secos e das cordas dos violão que desafiava o som alto de Mota Som. Vem do Guarani, do Milionários, das viagens incontáveis para Campina, vem da terra e do Posto que ficava no Serrotão, na hora de voltar pra casa.

O caba com uma cabeça daquele tamanho tem muita coisa pra dizer, e só diz quando acha que pode ou deve. Mas faz versos que é uma maravilha: cantor, compositor, poeta, escritor, um artista completo que intéra nesse sábado seus primeiros 57 anos.

A primeira audição de Florbela imediatamente me abanou os queixos e a partir dali num via outro casal dançando a cantiga que num fosse os meninos da fazenda Macaxeira.

Rangel contribui e contribuiu muito com minha escrita, o jeito dela. Nunca deu pitaco, mas comentou. Sempre viu o espaço que poderia ser preenchido e nunca ocupado.

Quando a poesia de Antonio Guedes abre os braços, cabem todos os abraços de todos os poetas- vagabundos e neles um mundo cheiroso e perfumoso como  o de Florbela, como o cangote de Luzia se enxerindo para um Ciço rangelista feito o menino que gosta de Juá. De Juazeirinho.

Parabéns cumpade véi. Muita Luz.

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