Rapariga é você!

Felinto está sentado na moto em frente ao shopping de Campina Grande, esperando a esposa trocar duas calcinhas que vieram com defeito de fábrica- uma tinha um furo em baixo e a outra estava sem meia banda da bunda. A moto estava em local proibido para estacionar, por isso Felinto deixa a moto ligada. Demora.

– Bixiga, vou levar uma multa. Dezembro os caba bota pra lascar.

O celular toca.

Dilema. Se ele atende e um agente de trânsito passar, caracteriza estacionamento? Se não atender seria esconjurado pela mãe.

Ah, que se dane a multa!

Alô? Bença mãe?

– Ei seu fresco, né tua mãe não.

– Oxe Carminha. O que tu quer?

– Mãe ta dizendo que tu num atendeu o telefone mode tua mulé que num deixou.

– Carminha pelamôrdedeus!!! Januária nem aqui tá?

            Ouve a mãe falando.

-Deixa eu falar com esse viado.

– Alo, Filinto?

– Bença mãe.

– Zabençoe. Filinto deixe de ser frouxo. Honre os zovos quieu passei talco. Atenda quando sua mãe ligar, num deixe essa mulé mandar em você não.

– Mae, tenha paciência. Olhe seu colesterol, sua ostoporose e outra coisa mãe, Januária nem ta aqui.

– Ô Filinto, cuma diabo tu foi percurar uma mulher cum nome fei desses?

(Felinto escuta a irmã dando pitaco)

– O ruim num é percurar, é achar.

– Ô mãe mande Carminha cuidar do baibudo dela.

– Deixe de pantim Filinto. Ói, perai que ta dando uma farta de ar…

Felinto se agonia.

– Mae, abra’s  ventas mãe, arrespire.

Carminha pega o telefone.

– Ói é só mãe falar com tu fresco véi, que ela já fica com o coipo reimoso. Ô bicho do sangue ruim. Derna que tu saiu do grupo da famia que ela num dorme dereito. Excomungado!!!

– Vai te lascar Carminha, pague os 25 contos que tu pediu emprestado a Januária pra fazer as zunha lá no Catolé, perto daquele motel…

– Oxe? E o galeto que ela armoçou no feriado de 7 de setembro, quem comprou?

– E eu seio? Ela já comeu e inté botou pra fora. Acho que foi com pena e tudo mode que ela gemeu que só a gota.

– Apôi quem comprou e pagou foi meu marido. Ma-ri-do. O que é dele é meu visse? Então né 25não, é só 5 que 20 foi do galeto.

– Galeto caro da gota.

– E tu acha quieles num cobra a farofa não?

– Que farofa?

– Filinto, num aguento essa sua pirangagem. Ói, liguei por que mãe mandou, a bichinha. Por mim tu e tua mulé ia pra baixa da égua, pro zinferno das quenga! Seu injeitado!

Felinto escuta a mãe gemendo e se fica agoniado, na porta do shopping, daquela que abre sozinha ver Januária bater a cabeça no vidro ao lado da porta.

– Eita bixiga!

Ver ela ao chão, as sacolas espalhadas e depois a ver levantada, as sacolas dependuradas e discutindo com um guarda risonho, a ver se aproximando, não consegue esconder dela o riso que se resumiu ao canto da boca.

– S’intupa Filinto Jackson.

Subiu na moto. Bateu no ombro dele:

– Rua Jânio Lopes, sem número, bairro Tambor, depois da casa de Inacinha.

– Oxe, e carece dá o endereço? Eu num sou Moto taxi não?

– Não??? Apôi de noite num venha pedir pra eu fazer lambretinha não viu?

– Ave quiela hoje ta cá gota. Bote o capacete Januária.

– Boto não. Tem um galo da gota do lado esquerdo da moleira. Bora home. Tenho que o que fazer.

Felinto estava doido pra chegar em casa, a bexiga cheia era sacolejada no asfalto irregular antigo e desnivelado de quase toda Campina Grande.

Depois de andarem por mais de uma hora, chegam em casa. Felinto vai direto para o fim do quintal e lá se esvazia. Volta, Januária com uma bolsa de gelo na cabeça.

– Quedê os meninos Narinha?

– Tao no lugar deles. Tu quer o que?

– Oxe eu? Nadinha? Quer um cibazol pra passar a dor de cabeça quer? Quer uma garapinha?

– Te dana Filinto isso nem existe mais. Saia dos anos 50 homem. Agora já tem até tornozeleira eletrônica? Tu devia me dar uma, e não essas véia feita de miçanga. Se eu fosse umazinha qualquer – feito gente que eu conheço bem, tu me cobria de dengo. Mas, sou apenas a mãe dos seus 4 filhos e isso não importa mais né?

– Importa sim Narinha.

– Que diabo tu quer me chamando assim? Estourasse o Bolsa Família de novo? Tu ta com quenga Felinto Jackson?

– Por falar nisso…

– Em quenga Felinto Jackson?

– Não mulé. No nome compreto.

– Diga

– Carminha ligou.

 Januária riu. Segundo ela o nome da cunhada tinha a ver com a frase dita antes.

– A bichota inda me deve 25 real.

– Era sobre o natal.

– Filinto, vá sozin.

– Mãe gosta tanto dos meninos…

– Gosta mais num gasta. Vó tem que gastar com neto e ela gasta é o juízo dos bichin. Num pode fazer nada que ela reclama. A véia dura mais que um casal de cágado da casa de Cid Moreira. Nan.

– Carminha ta com medo de ser o último natal de mãe.

– Filinto, derna 2009 quiela ta dessa pra pior. Num morre não e inda salga o peru toda vez, se eu num tivesse levando um fardo de pipoca karintó nós tinha era ´passado fome no ano passado, sem contar com os zoto da família, tudim se esguelando, parece até a fome canina…

– Januária, mãe ta doentinha. A gente vai pra churrascaria, tu num vai lavar os pratos não.

– E tá doente? Tu acha que me esqueci ano passado na Gauchinha??? A véia ficou dando in riba do porteiro da churrascaria, só sossegou quando o namorado dele chegou. Aí eu vi a veia triste.

– Arrespeite mãe Januária. É natal. No natal toda mãe é quinem Maria.

– Ta certo Felinto, se os povo lá de casa num fizer nada, eu vou pensar.

– E tu vai levar eu pra lá? Praquele mói de cachaceiro?

– Tudim homem bem-criado, os 3.

– Que num leva as mulé pros cantos e depois de bebo fica tudo apostando peido? Vou não mia fia, da outra vez sai de lá cinza.

Nisso ele tinha razão. Os cunhados passavam duas semanas comendo tudo de ruim para no dia de natal apostarem flatulências.

– Felinto? Né peido não visse, é fra-tu-len-ça.

– Mar menino, Januária tu se muda pro Aluísio Campos e já quer ser importante? Se num é peido é bufa.

Pelo oitavo ano consecutivo, a ceia de natal seria na casa da mãe de Felinto. A chegada dele, de Januária e dois meninos dos quatro foi insignificante. Na casa, a mãe de Felinto numa cadeira de balanço com o celular na mão, Carminha dançando lambada com o marido, os meninos de Carminha roubando uma banda do peru e o salgando, dois amigos do marido de Carminha cada um no celular e reclamando do sinal do wi fi, na outra sala, as mulheres deles contando segredos miúdos, no resto da casa grande e alpendrada, familiares, todos no grupos da família, no whatsapp. Carminha fez as honras:

– Januária que vestido elegante, soube que comprou no Shoopingue?

– Mia fia, foi em quase 12 vez. Mas deu certo não foi? E no cartão de Marilurdes, uma vizinha novata.

Era um vestido cor de rosa. Detalhes dourados nas alças, e depois das coxas ia alargando. Babado dourado. Dava para ver as alças vermelhas do soutien.

A mãe de Felinto:

– Januária se você não viesse seria uma tristeza danada. Eu merminha tava dizendo no grupo da família do uatizap que natal sem Januária só é natal em Belém do Pará.

– Dona Ceiça, a senhora num me agrade muito não senão me acostumo.

E riam. E Felinto cronometrava o tempo para o início do barraco. E a gurizada se empanturrava ora de pipoca karintó, ora de cousas que eles nunca ouviram falar, e a cachaça corria solta, quando começam os interesses:

– Carminha mulé, uma cana dessa quanté? Acho que é mais de 25 reais.

– Mulé quem tem fio dos zôto num se preocupa com dinheiro pouco não.

– Oxe. E fio tem preço?

– Januária fio não, mas o que zome paga…

– Tá falando do coveiro do Monte Santo, cuma é o nome dele…

– Januária num cave sua cova rasa não…

Pressentindo o clima, Dona Ceiça chama para a ceia, todos acompanham a matriarca, deixando Carminha e Januária irem por último, e do nada começam a rir, então uma olha para outra, aponta uma para outra e …

‘Rapariga é você, mal-amada…”

Cantam em voz e risos altos.

Felinto só queria um natal feliz. Do tempo de papai Noel. Ver um cometa, fazer um pedido…

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